Como gravar vocal na sala de ensaio (sem cabine e sem tratamento acústico)
O vocal é o stem que todo mundo vai julgar. O ouvinte perdoa um timbre de guitarra fino e nunca repara num tom um pouco abafado, mas um vocal lavado, cheio de sala, soa como "demo" em dois segundos. O que é injusto, porque o vocal costuma ser gravado no pior espaço acústico que a banda tem: uma sala de ensaio de concreto com uma bateria ressoando por simpatia no canto.
A boa notícia: as soluções são baratas e, na maior parte, questão de hábito. Aqui está o que realmente faz diferença, em ordem.
Use o microfone dinâmico que você já tem
A sabedoria da internet diz que vocal precisa de condensador de diafragma grande. Num estúdio tratado, claro. Na sua sala de ensaio, um condensador é um problema, porque ele ouve tudo: a geladeira, o trânsito e, acima de tudo, a própria sala, aquela reflexão abafada do concreto que você não consegue desgravar. Um dinâmico comum, o SM58 que está na sua bag de show agora mesmo, ouve principalmente o que está bem na frente dele. Essa rejeição vale mais do que qualquer brilho de condensador. Metade dos vocais dos discos clássicos passou exatamente por esse microfone, então ninguém pode dizer que é uma solução de segunda.
A distância é o seu tratamento acústico
Quanto mais perto o cantor estiver do microfone, mais alta fica a voz em relação à sala. A dez centímetros, mais ou menos um punho entre os lábios e a grade, a voz domina e o concreto quase some. Você ganha efeito de proximidade, o reforço de graves de cantar perto, e tudo bem: uma mixagem tira grave sobrando com facilidade, mas nunca tira a reverberação da sala que ficou impressa no take. Coloque um pop filter, ou a clássica meia sobre a grade, porque a essa distância as plosivas vão estourar.
Se quiser gastar uma noite melhorando a sala, pendure o edredom mais grosso que você tiver na parede para onde o cantor olha e cante na direção dele a um metro de distância. O edredom engole a primeira reflexão, que é a que mais estraga. Um edredom, um cobertor sobre um pedestal de microfone, um guarda-roupa aberto cheio de roupa: todos ganham de caixa de ovo, que não faz praticamente nada.
Grave o vocal sozinho, depois da banda
Gravar o vocal ao vivo com a banda significa que todos os outros instrumentos vazam para o microfone de voz, e esse vazamento sobe e desce toda vez que o fader do vocal se mexe na mixagem. Guarde o take ao vivo como guia se a energia importar, depois grave o vocal definitivo com a banda em silêncio, cantor de fone fechado, playback no menor volume que ainda sustente a performance. Fone alto devolve o clique e as guitarras direto para o microfone.
Ajuste o ganho de entrada para que a frase mais alta do refrão tenha picos por volta de -12 dB, sem flertar com o zero. Um take de vocal clipado é o único erro de gravação sem conserto. Depois grave três passadas completas, a música inteira, e escolha por seção depois. Perfeccionismo frase por frase mata a performance; passadas completas mantêm o fraseado vivo e ainda assim dão opções.
Exporte como um stem próprio
O vocal principal é sempre um arquivo próprio, e os backing vocals empilhados vão para um único stem estéreo. Sem reverb gravado em nenhum dos dois, efeito é coisa da mixagem, onde ainda dá para ajustar. Seco, perto e limpo é exatamente o que um mixador quer receber, porque toda decisão continua em aberto.
A partir daí o vocal assume seu lugar no topo da mixagem, que é onde o bandmixr.com vai colocá-lo: envie os stems, escolha o gênero e o motor abre espaço nas guitarras para o vocal, e não o contrário. Um microfone dinâmico de 100 francos, um edredom e um cantor bem perto do mic: esse é o segredo inteiro, e é o bastante para um vocal que aguenta ser a coisa mais alta da música.
